PAULO, UM MISSIONÁRIO ZELOSO E AUTÊNTICO
Dr. Caramuru AfonsoFonte: www.escoladominical.com.br
A vida de Paulo é um exemplo de que a autenticidade e o zelo comedido são características de quem vive imitando a Cristo.
INTRODUÇÃO
- Nesta lição, estudaremos a primeira personagem do Novo Testamento, o apóstolo Paulo, este campeão da fé e cuja autoridade espiritual lhe permitiu dizer que fosse imitado pelos crentes, visto que ele imitava a Cristo (I Co.11:1).
- O ilustre comentarista procurou enfatizar na vida do apóstolo seu zelo e autenticidade como marcas indeléveis de seu profícuo ministério. Ter zelo e ser autêntico é estar comprometido com o Senhor Jesus na vida sobre a face da Terra.

Colaboração/gráfico: Enomir Santos
I – A BIOGRAFIA DE PAULO (I) – O PREPARO DO FUTURO APÓSTOLO DOS GENTIOS
- “ Exceção feita ao próprio Jesus, Paulo é a figura mais importante entre os que marcaram os primeiros tempos do cristianismo. Por diversas razões. Antes de mais nada, a vida dele foi marcada por uma reviravolta radical. Ele, o fariseu Saulo (Saul), defensor ardoroso da Tora — a Lei hebraica — tornou-se repentinamente discípulo de Jesus, aquele que justamente anunciaria o ‘fim da Lei’ em sua Epístola aos Romanos. Seguro e convencido de sua nova fé, Saulo transformado em Paulo, ‘o humilde’, tomou o bastão de peregrino e se fez missionário, percorrendo o Império Romano: ele passou a ser o verdadeiro promotor do cristianismo.…” (Elian Cuvillier. Paulo: a humanização de Deus. Trad. de Marly N. Peres. História viva, ano II, n.17, p.38).
- As palavras objetivas e concisas do doutor em teologia do Instituto Protestante de Teologia de Montpellier, Elian Cuvillier, por si só mostram a importância do apóstolo Paulo na história da Igreja, a ponto, mesmo, de muitos terem, inclusive, querido denominar o “cristianismo” de “paulinismo”, por entender que a base doutrinária da Igreja centra-se muito mais nos escritos paulinos do que, propriamente, nos ensinos registrados pelos evangelistas, o que é evidente exagero. Se é verdade que, como dizia o saudoso pastor Bruno Skolimowsky (autor do hino 455 da Harpa Cristã e um dos principais pioneiros na organização das Assembléias de Deus no Estado de São Paulo), a Bíblia sem as epístolas paulinas seria “bem mais pobre”, o fato é que tais estudiosos se esquecem que os escritos de Paulo foram, ao menos em parte, resultado de uma recepção direta do Senhor (I Co.11:23), o que faz com que seus escritos nada mais sejam do que desdobramentos dos ensinos de Cristo quando de Seu ministério terreno.
- Paulo era o nome latino do apóstolo, nome este que surge, repentinamente, no texto sagrado em At.13:9 e que, a partir de então, é o único nome pelo qual o apóstolo é chamado, tendo sido também o nome pelo qual o apóstolo se identificou em suas epístolas. “Paulus”, em latim, significa “pequeno”, “pouco” e, segundo o site www.iremar.com.br, “…indica uma pessoa com muita disposição e um otimismo contagiante. Encara cada dia como um novo degrau para obter o desenvolvimento material e social. Dono de uma ambição inata, planeja cuidadosamente os passos da sua caminhada para o sucesso…” (http://www.iremar.com.br/index.php?q=Paulo&con=conexao&inc1=header&inc2=footer&banner=rodape&site=nomes Acesso em: 05 jul. 2007). Tudo indica que Paulo, cidadão romano que era, preferiu identificar-se com seu nome latino, a fim de demonstrar sua pequenez diante do Cristo a quem ele pregava, pois Paulo se identificou como sendo o “menor dos apóstolos” (I Co.15:9).
- O nome hebraico de Paulo, porém, era “Saul”, o mesmo nome do primeiro rei de Israel, que, aliás, era da mesma tribo de Paulo, a tribo de Benjamim. “Saul” (em hebraico “Shaul”) significa “solicitado” ou “esmolar” e sua forma grega era “Saulo”. Aliás, não só em nome e em tribo que se tem uma vinculação entre Paulo e Saul. O primeiro rei de Israel preparou o reino para Davi, que o expandiu, enquanto que Paulo recebeu o reino preparado do “Filho de Davi”, expandindo-o entre os gentios; Saul, de amigo e admirador de Davi, tornou-se seu maior adversário, enquanto que Paulo, de maior adversário do “Filho de Davi”, tornou-se o Seu maior amigo e divulgador; Saul quis matar Davi para se manter no poder, enquanto que Paulo negou-se a si mesmo e a sua posição de poder para exaltar e enaltecer o “Filho de Davi”; Saul rebelou-se contra Deus e acabou por se suicidar, enquanto que Paulo submeteu-se ao Senhor e teve a convicção de que sua morte era apenas uma passagem para ganhar a coroa da vida.
- Pouco é relatado a respeito da vida de Paulo até o momento em que surge nas Escrituras (At.7:58), como algoz do primeiro mártir da Igreja, o diácono Estevão, ocasião em que, sem sombra de dúvida, por ter sido a pessoa que anuiu com o apedrejamento daquele homem (pois este era o significado de pôr os vestidos aos pés de Saulo- At.8:1), já ostentava uma alta posição na hierarquia religiosa judaica, muito provavelmente já fazendo parte do Sinédrio ou de sua assessoria (At.9:1,2).
- Antes disso, apenas sabemos, por relatos do próprio Paulo seja em suas epístolas, seja nas suas defesas e discursos constantes do livro de Atos dos Apóstolos, que ele era natural de Tarso(At.22:3), na Cilícia (região hoje pertencente à Turquia), cidade que, nos dias de Paulo, era um conceituado centro de estudos filosóficos, onde prevalecia a filosofia estóica(At.17:18), como era chamada a filosofia iniciada por Zenão de Citium por volta do século III a.C. e que perdurou até o triunfo do cristianismo no século IV d.C., o que explicaria até muitos conceitos próximos ao estoicismo que se encontram no pensamento paulino.
- Em Tarso, Paulo tem, de imediato, contacto com duas realidades que marcariam profundamente a sua vida. Em primeiro lugar, o contacto com a filosofia grega, pois, indubitavelmente, Paulo estudou em escola de Tarso, onde teve acesso a todo o pensamento filosófico estóico, que tanto lhe serviria ao longo do seu ministério (que o diga o seu discurso perante o Areópago em Atenas — At.17:15-31 — que é uma demonstração de erudição da filosofia grega).
- Em segundo lugar, por ser natural de Tarso, Paulo gozava da cidadania romana, o que, àquela época, era uma prerrogativa de poucas cidades, o que lhe dava o direito de ser tratado como se fosse um natural de Roma, tendo, assim, todas as garantias jurídicas que desfrutavam os dominadores do mundo de então. A cidadania romana fez com que Paulo também tivesse conhecimento do direito romano e foi fundamental, ao curso de seu ministério, para livrá-lo das ciladas que sempre lhe armaram os judeus.
- Mas, embora tivesse nascido em Tarso e gozasse da cidadania romana, Paulo era, antes de tudo, um israelita, da tribo de Benjamim (Rm.11:1) e sua erudição e inteligência foram, certamente, os principais motivos que o levaram a estudar a lei com Gamaliel em Jerusalém (At.22:3), o grande mestre fariseu (At.5:34), já que, tudo indica, seu pai pertencia a esta seita judaica (At.23:6). Há quem entenda que a ida de Paulo a Jerusalém foi uma tentativa de impedir a assimilação do apóstolo pela cultura greco-romana, o que se entende se seus pais fossem fariseus.
OBS: “…seus pais[ os pais de Saulo, observação nossa] já sabiam o que fazer. Gamaliel era considerado o melhor mestre da lei, era o homem que transformava vidas com apenas seu carisma de grande mestre e exemplo de vida. Seria o único homem, segundo seus pais, capaz de mudar o raciocínio imperativo que, certamente, fluiria no intelecto de Saulo de Tarso.…” (Ailton Muniz de Carvalho. O Messias está voltando. 2.ed., p.94).
- A seita dos fariseus era, ao tempo do apóstolo Paulo, a mais importante seita judaica, embora não detivesse o poder político e religioso, que se encontrava nas mãos da seita dos saduceus. Os “fariseus” (nome que, tudo indica, significa “separados”, isto é, “santos”). surgiram no período interbíblico (o período entre os dois Testamentos, cerca de 400 anos, em que não se levantou profeta algum em Israel, desde Malaquias até João Batista), pregando a necessidade de o povo de Israel ser um cumpridor rigoroso da lei e dos mandamentos, tanto individual como nacionalmente, a fim de impedir que novo cativeiro como o da Babilônia viesse a retirar o povo da Terra Prometida. Para tanto, não só se devia cumprir os mandamentos mas adaptá-los a todas as situações que se apresentassem, criando-se um “fosso”, uma “cerca” em torno da “lei” (Torá). O resultado disso foi o acréscimo de muitas regras às da Torá e que deram origem ao judaísmo tal qual como o conhecemos, pois a única seita a sobreviver depois da destruição do Templo e da diáspora.
- Este rigorismo na observância da Lei levou os fariseus a se prenderem a aspectos de aparência exterior, a um formalismo vazio e que superava o próprio conteúdo dos mandamentos, o que levou os fariseus a uma incompatibilidade com os ensinos de Jesus, tornando-os os principais adversários do Senhor durante Seu ministério terreno, como se verifica claramente do capítulo 23 de Mateus. Foi junto a estes religiosos de zelo excessivo e radicalmente contrários aos ensinos de Jesus que Paulo se formou em Jerusalém.
- Em Jerusalém, portanto, Paulo completa a sua educação, instruindo-se na lei judaica e dela se tornando um exímio conhecedor e dos raros casos em que se tinha um fariseu com pleno conhecimento da cultura greco-romana. Não demorou muito para que este jovem se notabilizasse e ocupasse posições de proeminência na cúpula religiosa judaica, tudo levando a crer que Estevão tenha sido seu companheiro de estudo nestes tempos, pois o seu martírio teve um papel fundamental em todo o ministério do apóstolo.
II – A BIOGRAFIA DE PAULO (II) – O ZELOSO FARISEU TORNA-SE UM CRISTÃO
- Extremamente zeloso pela lei (Fp.3:6), Paulo pôde enxergar logo o crescimento da Igreja e se tornou o mais implacável perseguidor dos cristãos, num zelo religioso que nada tem a dever aos fanáticos suicidas dos nossos dias (At.9:1). Não bastasse a impiedosa caça aos cristãos feita em Jerusalém, Paulo conseguiu do sumo sacerdote autorização para promover a perseguição também em Damasco, então a capital da província romana da Síria (à qual pertencia a Judéia).
- Este pedido de Paulo, o último pedido do “pedinte”, do “esmoler” (o significado de seu nome hebraico), mostra como se estava diante de uma das mentes mais prodigiosas, senão a mais prodigiosa do seu tempo. Paulo fora o único que percebera que a decisão do Sinédrio de expulsar os judeus de Jerusalém, com exceção dos apóstolos, havia sido equivocada, pois, ao contrário do que ocorria entre os judeus, em que os mestres, os rabinos, eram fundamentais para a proliferação da religião, entre os cristãos todos eram capazes de propagar a fé, não havia a dependência junto aos apóstolos, de forma que, ao pedir que se iniciasse a perseguição em Damasco, Paulo demonstra ter percebido este fato e verificado que, se não se agisse rapidamente, a fé cristã se alastraria por todas as colônias judaicas do Império Romano.
- Mas o nosso Deus já havia escolhido Paulo desde o ventre de sua mãe (Gl.1:15) e é no caminho para Damasco que Jesus Se lhe revela e ocorre a extraordinária conversão (At.9:1-18). Aquele que percebera que a Igreja cresceria ainda mais diante da decisão do Sinédrio de dispersar os crentes por entre as colônias judaicas do Império Romano, era o vaso escolhido de Deus para ir ainda além do que imaginara o então perseguidor: pregar a Cristo entre os gentios.
- Percebemos, assim, nitidamente, que Deus permitiu que Paulo fosse formado nas letras judaicas, gregas e romanas, para que fosse um eficaz vaso na propagação do Evangelho entre os gentios. Tudo não passara de uma preparação para o ministério que Paulo iria desenvolver a partir de sua conversão. Tudo quanto aprendera seria utilizado no ministério, tanto que Paulo denomina a todo este conhecimento de “esterco” (Fp.3:8), ou seja, como fertilizante, como material que serve para fortalecer, corroborar o conhecimento que adquiriu de Cristo Jesus. Eis uma demonstração cabal de que o conhecimento secular não é obstáculo, mas um auxiliar poderoso no ministério de cada cristão e como não têm razão alguma os inimigos do estudo, os anti-intelectualistas, que, lamentavelmente, ainda existem aos milhares nas igrejas locais. Se o estudo secular fosse um mal, um entrave na obra do Senhor, por que Deus teria preparado durante décadas o apóstolo Paulo?
- O relato da conversão de Paulo é uma narrativa que muito nos esclarece a respeito da salvação. É certo que foi uma experiência única, que não deve ser tomada como uma “doutrina”, mas as suas características nos permitem verificar o que significa o novo nascimento, a regeneração do pecador, a transformação de uma criatura de Deus em filho de Deus, notadamente dentro do foco que adotamos neste trimestre letivo, qual seja, a de investigação do caráter cristão.
- A narrativa da conversão de Paulo mostra que, antes de se encontrar com o Senhor, o então perseguidor da Igreja era alguém que “respirava ainda ameaças e mortes contra os discípulos do Senhor”. Paulo, no seu zelo religioso, apenas trazia ameaças e mortes contra o próximo. O zelo religioso, sem a presença de Jesus Cristo na vida do religioso, somente redunda em ameaças e mortes.
- Muitos têm, ao longo dos séculos, e, principalmente, a partir do século XVII, criticado as religiões e a religiosidade, considerando-as culpadas pelas guerras e pelos sofrimentos causados por elas. Estes pensadores, cada vez mais ousados, culpam a religião por todo o sofrimento da humanidade, pregando, aos quatro ventos, que somente haverá paz e felicidade sobre a face da Terra quando não mais houver religiões ou, então, quando todas as religiões se fundirem em uma só, que tenha, de preferência, o ser humano como alvo de adoração.
- Esta mensagem, cada vez mais sedutora e que ganha inúmeros adeptos, nada mais é que o pré-lançamento da religião do Falso Profeta, que levará o mundo todo a adorar o Anticristo, na Grande Tribulação, depois que a Igreja for arrebatada por Cristo Jesus, o que não demora ocorrer. No entanto, apesar de se estar diante de um pensamento nitidamente distorcido pelo inimigo de nossas almas, as Escrituras confirmam que o zelo religioso, sem Jesus, somente redunda em ameaças e mortes. O exemplo disto é o zeloso Saulo.
- “Zelo” é, segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, “grande cuidado e preocupação que se dedica a alguém ou algo”, “forte disposição, diligência, empenho aplicado na realização de algo (ao bom desempenho de tarefas, deveres, obrigações religiosas etc.)”, “afeição intensa, amor por alguém ou algo”. Ora, quando alguém se dedica a religiões, a doutrinas de homens (Mt.15:9; Mc.7:7; Cl.2:22; Hb.13:9), temos que outro resultado não pode haver senão ameaças e mortes, pois o ser humano, em seu pecado, está morto em suas ofensas e pecados (Ef.2:1,5; Cl.2:13), encontra-se do lado da morte (Jo.5:24; I Jo.3:14), de forma que, de tal fonte, somente pode surgir a morte.
- O “zelo religioso” sem Cristo Jesus nada mais é que “ódio”, que, aliás, era um dos significados da palavra grega “zêlos”, que deu origem à palavra em língua portuguesa. Não é de surpreender, portanto, que o “zelo religioso” tenha promovido mortes e tragédias ao longo da história da humanidade e continuará a fazê-lo, inclusive o fará durante o tenebroso governo da besta durante a Grande Tribulação. Não nos esqueçamos das palavras de Jesus: “…vem mesmo a hora em que qualquer que vos matar cuidará fazer um serviço a Deus.”(Jo.16:2).
- Saulo era mais um destes milhões de fanáticos religiosos que, em seu zelo sem Cristo, apenas alimentam a violência, o ódio e a dor. De posse das cartas recebidas do sumo sacerdote com autorização para prender os cristãos que encontrasse em Damasco e os levasse presos a Jerusalém, tem um encontro no caminho com o Senhor Jesus.
- Somente um encontro pessoal com Jesus Cristo pode mudar o caráter de uma pessoa. Não há conversão sem que se encontre pessoalmente com Jesus Cristo. Jesus Cristo é uma pessoa e, por isso, devemos ter um relacionamento com Ele, um diálogo, uma comunicação. Precisamos ter uma experiência contínua com Deus, sem o que não seremos, verdadeiramente, Seus filhos. Saulo, após se converter, iniciou esta experiência, que alcançou um patamar tão profundo que, certa vez, afirmou: “…vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne vivo-a na fé do Filho de Deus…” (Gl.2:20 “in medio”).
- Podemos repetir estas palavras de Saulo ou, ainda, apesar de nos chamarmos “cristãos”, “evangélicos” ou “crentes”, ainda não tivemos um encontro pessoal com o Senhor? Não nos esqueçamos da vida de John Wesley, o fundador da Igreja Metodista, que admitiu que somente quando retornava de sua primeira viagem missionária à América, já como ministro do Evangelho, em um navio, teve um verdadeiro encontro pessoal com Cristo, considerando ter aí ocorrido a sua conversão.
- O encontro pessoal com Jesus na vida de Saulo começou com um esplendor de luz do céu, símbolo do Evangelho de Cristo que o próprio Paulo, mais tarde, diria ser a iluminação que elimina a cegueira espiritual dos incrédulos (II Co.4:3,4). Saulo, envolvido por este clarão, caiu na terra (não se diz, no texto sagrado, que estivesse sobre algum animal quando a luz se lhe apareceu), gesto que também simboliza outro requisito indispensável para uma conversão: a submissão a Deus, a renúncia de si mesmo, a rendição ao Senhor.
- Em seguida, já no solo, Saulo ouviu a voz de Jesus que lhe perguntou porque ele O perseguia. Temos aqui outra característica na conversão das pessoas: elas passam a ouvir as palavras de Jesus, a Palavra de Deus, até porque, como explicaria o próprio Paulo, na sua epístola aos romanos, a fé vem pelo ouvir e o ouvir pela Palavra de Deus (Rm.10:17).
- Não é possível que haja conversão sem que a pessoa ouça e observe a Palavra de Deus. Todos quantos se digam filhos de Deus mas insistem em não ouvir a voz do Senhor ou, pior do que isto, ouvem-na mas não a observam, sendo ouvintes esquecidos (Tg.1:22), não são verdadeiros servos do Senhor, mas tão somente insensatos, cuja ruína espiritual não demora (Mt.7:26,27).
- Temos, então, o início da conversão de Saulo. Tendo sido inquirido pelo próprio Jesus, Saulo responde, chamando a Jesus de Senhor, num sinal de submissão e reconhecimento da soberania divina de Cristo: “Quem és tu, Senhor?” Saulo, apesar de toda a sua erudição, inclusive na lei judaica, reconhece com esta pergunta a sua ignorância, sem falar que admite a condição de Cristo como Deus, o que somente se faz pelo Espírito Santo (I Jo.4:3,15).
- A conversão é obra do Espírito Santo na vida do homem. É o Espírito que convence o pecador do pecado, da justiça e do juízo (Jo.16:8), não sendo uma tarefa que se faça por força ou violência (Zc.4:6). O violento e zeloso Paulo, que, por meio de ameaças e mortes, procurava levar os judeus de volta ao judaísmo, começa a descobrir que a transformação do homem se dá pelo Espírito Santo. Será que temos já esta compreensão da realidade espiritual, mormente quando procuramos evangelizar nossos familiares e conhecidos?
- Jesus não faz rodeios. Identifica-se como o perseguido: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues” (At.9:5). Temos aqui o Jesus que não muda, cuja mensagem continuava a ser, mesmo após estar glorificado e à destra do Pai, a mesma que proferiu a partir da prisão de João Batista (Mc.1:15). Jesus chama Saulo ao arrependimento de seus pecados. Saulo tinha de reconhecer que era o perseguidor, embora isto fosse extremamente penoso para sua mente, concepções e viver. Este chamado ao arrependimento é reforçado pela expressão “dura coisa te é recalcitrar contra os aguilhões” (At.26:14), ou seja, é duro resistir a obedecer a Deus, chegar ao ponto da ferida, retirar o “aguilhão”, ou seja, a ponta de ferro da aguilhada, ao orgulho próprio, a vaidade pessoal, o que sempre ocasionará dor (na NVI, a expressão é “resistir ao aguilhão só lhe trará dor”), mas que é absolutamente indispensável para que sigamos a Cristo. Sem renúncia de nós mesmos, sem tomarmos a nossa cruz, é impossível seguir o Senhor Jesus (Mc.8:34; Lc.9:23).
OBS: A expressão “duro é recalcitrar contra os aguilhões” é encontrado, na ARC, também em At.9:5 mas é considerado espúrio ali, um erro de Erasmo na elaboração do chamado “Texto Recebido”, não sendo a expressão encontrada em qualquer outra tradução das Escrituras, salvo as baseadas na Vulgata Latina, como a Versão do Pe. Antonio Pereira de Figueiredo. Entretanto, o relato de At.26:14 confirma que foi dito pelo Senhor.
- Sem arrependimento de pecados, não há genuína conversão, mas Saulo se arrependeu e, tremendo e atônito, rende-se ao Senhor Jesus, perguntando-lhe o que Ele queria que fosse feito. Jesus, então, mandou que Saulo entrasse na cidade e ali se lhe diria o que deveria fazer. Saulo estava, então, cego, tendo sido guiado pelos homens que o acompanhavam, o qual haviam ouvido a voz, mas não na haviam compreendido, visto que o Senhor Jesus falou em hebraico com Saulo (At.9:7; 22:9 e 26:14), língua já, então, morta, conhecida apenas dos estudiosos das Escrituras, como era o caso de Saulo.
- A presença de companheiros na viagem, que viram a luz mas não entenderam a mensagem dada por Jesus a Saulo, mostra que a experiência da conversão é individual, que faz parte da intimidade de cada um com Deus. Não adianta queremos “ir de carona” na experiência de nossos irmãos em Cristo, precisamos nós mesmos de ir ao encontro com Jesus. A salvação é individual.
- Saulo entra na cidade de Damasco e, cego, vai para a casa de Judas, na rua chamada Direita, onde ficou três dias sem comer nem beber. Como bom fariseu, buscou a Deus em jejum, não mais o jejum ritual e formalista que costumava fazer, mas uma intensa busca de Deus, para saber qual era a vontade do Senhor para a sua vida, tanto que teve uma visão em que Ananias orava por ele e lhe restabelecia a vista (At.9:12), que foi precisamente o que aconteceu, oportunidade em que, demonstrando ser uma pessoa realmente convertida, aceitou ser batizado nas águas e, nesta ocasião, também foi cheio do Espírito Santo, ou seja, batizado com o Espírito Santo (At.9:17,18).
- Aqui temos preciosas lições: a conversão genuína leva a pessoa a ter uma vida de oração e consagração a Deus. Paulo passou a buscar a Deus assim que se converteu, querendo saber qual a vontade do Senhor para a sua vida. A conversão genuína leva a pessoa a aceitar o batismo nas águas, a cumprir as ordenanças do Senhor. A conversão genuína e a busca incessante do Senhor leva-nos ao revestimento do poder, ao batismo com o Espírito Santo, indispensável para um ministério eficaz. Por fim, a obra do Evangelho não se limita a salvar a alma, mas também a curar o corpo. Saulo foi curado da cegueira, para que pudesse exercer a obra do Senhor. Jesus continua o mesmo, amados irmãos: salva, cura e batiza com o Espírito Santo!
III – A BIOGRAFIA DE PAULO (III) – PAULO, O VASO ESCOLHIDO PARA LEVAR O NOME DE JESUS AOS GENTIOS
- Começa, então, o ministério do apóstolo, que será marcado pelo sofrimento por causa do nome de Jesus (At.9:16). Paulo já sai de Damasco alvo de perseguição e ameaçado de morte pelos judeus (At.9:23). Vai até Jerusalém, onde, naturalmente, sua acolhida pela Igreja teve grande resistência, que só foi vencida por causa da intervenção de Barnabé (At.9:26,27). Mesmo assim, já se nota uma tendência de Paulo para pregar aos chamados “judeus gregos” (At.9:29), ou seja, os judeus da diáspora, os judeus nascidos fora da Palestina, como que a prenunciar o ministério que teria em relação aos gentios, o que, aliás, já lhe fora revelado pelo Espírito Santo em Damasco (At.9:15).
- Nesta época, percebemos que Paulo se notabilizaria por ser um grande pregador e de centrar seu discurso na comprovação, nas Escrituras, de que Jesus era o Messias aguardado por Israel (At.9:22,29). No entanto, ante a notoriedade que havia alcançado como perseguidor dos cristãos, não foi possível que Paulo continuasse em Jerusalém. A perseguição tomou grandes proporções e o apóstolo acabou sendo enviado de volta para sua terra natal (At.9:30). Terminava, assim, a primeira fase do ministério de Paulo, basicamente um ministério de pregação, que é também a primeira face deste profícuo ministério.
- De retorno a Tarso, Paulo ali não ficou. Dizem as Escrituras que partiu para a Arábia, como também retornou a Damasco (Gl.1:17), esteve quinze dias em Jerusalém (Gl.1:18), bem como esteve em partes da Síria e da Cilícia (Gl.1:20), fazendo, porém, de Tarso a sua “base”, já que ali estava a sua família. Além das pregações que continuava a fazer, Paulo, nesta fase, teve mais tempo para refletir e meditar nas Escrituras Sagradas, tendo sido, no nosso modesto entendimento, neste período em que o apóstolo alicerçou a sua fé, que teve a correta compreensão do significado de servir a Deus e de crer em Jesus como único e suficiente Senhor e Salvador, retomando, assim, em Tarso, a sua rotina de estudos, só que agora não só de filosofia e de direito, mas das Escrituras à luz de todo o conhecimento que havia adquirido ao longo dos anos.
- Foi lá que Barnabé o encontrou, levando-o para Antioquia (At.11:25), onde se inicia a segunda face do ministério de Paulo, a de ensinador da Palavra de Deus (At.11:26), quando, então, Paulo aplica e ensina tudo aquilo que havia meditado, refletido e aprendido do Senhor. Isto nos mostra, portanto, que a grandeza do ministério de Paulo não se deu num passe de mágica e, embora tivesse a indispensável inspiração do Espírito Santo, foi fruto de uma preparação árdua e que exigiu muito esforço do apóstolo, ainda que tivesse sido chamado desde o ventre de sua mãe (Gl.1:15), o que põe por terra os argumentos dos preguiçosos dos nossos dias que, por terem chamada divina, acham que basta abrirem a boca que o Senhor os encherá. Não é isto que nos mostra a vida de Paulo…
- Em Antioquia, porém, viria a chamada que já havia sido prometida desde a conversão do apóstolo. O próprio Espírito Santo chama Paulo e Barnabé e determina a sua separação para a missão (At.13:2). Era a confirmação para a igreja da promessa feita a Paulo. O nosso Deus não é Deus de confusão e, portanto, se alguém recebeu promessa de Deus para a obra missionária ou qualquer outra tarefa, não se precipite, pois o Senhor sabe o momento e a hora certos e não é homem para que minta nem filho do homem para que se arrependa. De modo inquestionável, depois de mais de um ano de árduo e esforçado trabalho na área do ensino, Deus confirmou a chamada de Paulo e de Barnabé e determinou que fossem enviados à missão. Aparecia a terceira face do ministério de Paulo, a de missionário, a de fundador de igrejas locais, a de desbravador do evangelho entre os gentios, trabalho que gerou, entre tantos resultados, o da salvação de todos os descendentes de europeus até a presente data.
- Paulo e Barnabé, então, iniciam a sua primeira viagem missionária, que é descrita por Lucas de At.13:4 até o final do capítulo 14, quando, então, retornam a Antioquia. Nesta primeira viagem, Paulo e Barnabé foram a Salamina, Pafos, Perge da Panfília, Antioquia da Pisídia, Icônio, Listra, Derbe, tendo, então, depois de Paulo quase ser morto por apedrejamento, retornado a estas cidades em sentido inverso e voltado até Antioquia. Já nesta primeira viagem, Paulo foi tenazmente perseguido pelos judeus, a quem primeiro pregava o Evangelho, tendo, porém, em todas estas cidades instituídos igrejas locais. A obra missionária de Paulo, entretanto, não saíra da chamada região da Ásia Menor, região hoje ocupada pela Turquia, portanto não muito longe de sua terra natal.
- Quando ainda estava em Antioquia, Paulo foi participar, em Jerusalém, do concílio que havia sido convocado principalmente por causa de sua obra evangelizadora, concílio que tratou da questão da lei mosaica e da necessidade de sua observância por parte dos cristãos. Neste aspecto, aliás, está um dos aspectos mais importantes do ministério de Paulo. Como admitem até os próprios judeus, “…A decisão de aceitar gentios no seio cristão sem exigir qaue se tornassem judeus foi um desenvolvimento surpreendente que requeria justificação especial. Uma figura-chave neste passo dos acontecimentos foi Paulo(…) ao sustentar a autoridade das Escrituras judaicas segundo o seu ‘espírito’ enquanto abandonava o código escrito (veja 2 Cor.3:6), Paulo separava do povo judeu a cristandade.…” (Robert M. SELTZER. Povo judeu, pensamento judaico(I): a experiência judaica na história. Trad. de Elias Davidovich. In: Judaica, v.1, p.212-5).
- Vencida a tese de Paulo no concílio de Jerusalém, Paulo retornou a Antioquia, onde retomou seu trabalho de pregação e de ensino (At.15:35). Resolvido a iniciar uma segunda viagem missionária, separou-se de Barnabé por causa de Marcos, escolhendo a Silas como seu companheiro e começando sua viagem pela Síria e Cilícia (At.15:40,41). Em Derbe, passa a ter a companhia de Timóteo (At.16:1), após ter passado pelas igrejas que havia fundado, buscando direção de Deus para encaminhar a sua atividade missionária, teve a visão do varão da Macedônia e começa, então, a pregação do evangelho na Europa, por meio de Filipos (At.16:9-12).
- Em Filipos, Paulo evangeliza Lídia e começa a pregar na cidade, expulsando o espírito de adivinhação que havia em uma moça, o que o leva à prisão. Após a milagrosa saída sua do cárcere e a salvação do carcereiro e de sua família, é-lhe solicitado que deixe Filipos, tendo, então, Paulo ido para Tessalônica, então a capital da província romana da Macedônia. Ali consegue ganhar almas para o Senhor e estabelecer uma igreja, igreja esta formada tanto por judeus quanto por gentios e que tinha um contingente de mulheres da elite da cidade (At.17:4).
- Tessalônica era, assim, depois de Antioquia, a cidade gentia mais importante em que se formava uma igreja, tendo Paulo, para se manter, contado não só com seu próprio trabalho de fabricante de tendas (ofício que deve ter aprendido quando criança e adolescente em Tarso – cfr. I Ts.2:9; At.18:3), como também com ajuda recebida da igreja dos filipenses (Fp.4:15,16). Entretanto, quando ali estava, num período bem mais curto que o que havia estado seja em Antioquia, seja nas demais cidades em que havia feito missões (inclusive a própria Filipos), sofreu a oposição violenta dos judeus (em maior número que nas outras cidades, diante da importância e da própria população de Tessalônica), obrigando Paulo e Silas a sair apressadamente de Tessalônica, com direção a Beréia (At.17:5-10).
- Vemos, assim, pela vez primeira, a interrupção do trabalho missionário de Paulo numa nova igreja local, o que, certamente, muito preocupou Paulo, ainda mais quando, já em Beréia, o apóstolo percebeu que a recepção do evangelho naquela cidade se deu de um modo muito mais seguro, pois os crentes de Beréia logo aprenderam a fazer uso das Escrituras, chegando, mesmo, a conferir os ensinamentos de Paulo (At.17:11). Em Beréia, além de Paulo também ter alcançado parte da elite da cidade, a população masculina parecia ser também superior, o que, de certo modo, representava uma tranqüilidade em período de perseguição (At.17:12).
- Entretanto, ainda que não tão repentinamente quanto em Tessalônica, os judeus da capital Macedônia também chegaram a Beréia e Paulo foi mandado para Atenas às pressas, enquanto que Silas e Timóteo ainda ficaram algum tempo em Beréia (At.17:14). De Atenas, onde pregou no Areópago e formou uma pequena comunidade cristã, Paulo não se esqueceu de Tessalônica. Quis voltar para lá, repetindo o que fizera em outras igrejas onde fora perseguido, como Derbe, mas o diabo o impediu (I Ts.2:18). Impedido pelo diabo, mandou que Timóteo fosse ver os irmãos de Tessalônica (I Ts.3:2) e, quando este retornou com as notícias, Paulo já partira para Corinto, onde o Senhor lhe disse que ficaria por algum tempo, o que, efetivamente, aconteceu, pelo espaço de um ano e seis meses (At.18:11).
- Mas seu coração não havia se esquecido de Tessalônica. Tendo de permanecer em Corinto ante a expressa ordem divina neste sentido (At.18:9,10), não restou outro meio para Paulo senão enviar uma carta aos tessalonicenses. Começava, então, a quarta face do ministério de Paulo, o ministério epistolar, aquele pelo qual ele se faria conhecido não só dos crentes de sua época, mas de todos os crentes da dispensação da graça e através do qual perpetuaria a sua revelação de Cristo.
- Entendemos, então, perfeitamente, porque Deus permitiu que o diabo tivesse impedido Paulo de retornar a Tessalônica. Se Paulo tivesse conseguido voltar a Tessalônica, faria como havia feito em Icônio, Listra e Derbe, ou seja, consolaria e confortaria os irmãos, alicerçaria os seus ensinos aos crentes e, desta maneira, traria enormes benefícios àqueles crentes, que, devidamente encomendados e com lideranças escolhidas pelo Espírito Santo(At.14:22,23), prosseguiram sua caminhada para o céu. Entretanto, Deus queria algo maior da parte do apóstolo: queria que ele não só confirmasse os irmãos para quem havia evangelizado e os seus filhos na fé, mas a todos os irmãos de todas as épocas da dispensação da graça. Para tanto, seria preciso que Paulo não estivesse presente pessoalmente, não pudesse sequer falar com os irmãos de Tessalônica e, por isso, deixou que o diabo tivesse uma suposta vantagem.
- Entretanto, quando Satanás achava que havia impedido Paulo de ensinar os irmãos de Tessalônica, quando o próprio Paulo achava que não teria como completar seu trabalho naquela importante cidade, o Espírito Santo o inspira a escrever, a trazer ensinos àqueles irmãos por escrito, ensinos que seriam tão produtivos quanto os oralmente transmitidos, como iriam superar as limitações próprias do ensino falado, pois poderiam ser lidos e relidos pelos irmãos, divulgados entre irmãos de outras cidades e, o que era ainda mais relevante, superarem as limitações da própria vida do ensinador e dos aprendizes, alcançando as gerações futuras. Através do ministério epistolar, que ali se iniciava, Deus dava um grande salto de qualidade para a Sua amada Igreja e o diabo era, uma vez mais, totalmente envergonhado.
- O impedimento que Satanás impôs a Paulo para que este retornasse a Tessalônica representou o início do Novo Testamento, a retomada pelo Espírito Santo do trabalho de registro da revelação divina e, num espaço de mais ou menos 50 anos (a primeira epístola aos tessalonicenses considera-se ter sido escrita entre os anos 50 e 51 e o último livro escrito, provavelmente o evangelho segundo João, dataria de cerca do ano 100), Deus completaria esta obra inigualável sobre a face da Terra: a Bíblia Sagrada.
- O impedimento de Satanás pode ter parecido uma frustração para Paulo, mas representou o início da confirmação e da segurança para a Igreja, a complementação da base sobre a qual ela crê em Jesus e caminha para o céu. Querido(a) irmão(ã), não se desanime, as suas frustrações momentâneas não passam de grandiosas operações divinas para o bem-estar de muitos, inclusive do seu bem-estar. Que seria de Paulo sem as suas epístolas? Exatamente, o que seria você sem as frustrações que você agora está sofrendo. Confie e tenha o discernimento que teve o apóstolo para ter uma nova face no seu ministério.
- Pouco depois, Paulo recebe informações sobre a reação da sua primeira epístola e, sem vacilar, encaminha outra epístola à igreja de Tessalônica, a segunda de treze epístolas que, tempos depois, a Igreja como um todo reconheceria como sendo textos inspirados pelo Espírito Santo e dotados de tanta autoridade quanto as Escrituras hebraicas (o Antigo Testamento). Estas duas cartas encontram-se como reconhecidas de autoridade e de inspiração desde os primórdios da história da Igreja e, com certeza, estavam entre os escritos que Pedro mencionou em II Pe.3:15,16.
- Este ministério epistolar de Paulo foi fundamental para que o trabalho missionário do apóstolo não fosse interrompido por causa das prisões que sofreria a partir de então. Tendo escrito as suas primeiras cartas muito provavelmente em Corinto ou próximo dali, Paulo, impulsionado pelo Espírito Santo, volta para Jerusalém, e, no caminho, é avisado pelo Espírito de que seria preso. Foi o que ocorreu. Preso no templo, acusado injustamente de er violado a lei, Paulo é resgatado pelo tribuno, que o impede de ser morto, e, no Sinédrio, temendo ser morto, acaba por invocar sua cidadania romana, sendo, então, levado para Cesaréia, onde fica alguns anos até ser mandado para Roma, já que havia apelado para César.
- Na prisão em Cesaréia, Paulo teve oportunidade de pregar o Evangelho aos procuradores romanos Festo e Félix, como também ao rei Agripa. Mandado para Roma, fez penosa viagem, onde demonstrou o poder de Deus aos tripulantes e passageiros. O navio afundou, mas ninguém pereceu, tendo eles aportado na ilha de Malta, que, desde então, se tornou uma cidadela do Cristianismo no meio do Mar Mediterrâneo.
- Paulo foi levado a Roma, onde teve a oportunidade de pregar o Evangelho à colônia judaica da sede do Império Romano, momento em que se encerra a narrativa do livro de Atos, escrito por Lucas, um de seus principais companheiros. A partir de então, a falta de relatos bíblicos faz surgir controvérsias quanto à vida do apóstolo.
- Entendem alguns que Paulo foi absolvido das acusações e, em seguida, pôde ir para a Espanha, como era seu desejo, às custas da igreja de Roma, tendo ali pregado o Evangelho e, ao retornar a Roma, sido encarcerado na primeira grande perseguição romana contra a Igreja, nos tempos de Nero, tendo, então, sido martirizado nesta segunda oportunidade, como antevia na segunda epístola que escreveu a Timóteo, sua última carta, o que data a sua morte por volta do ano 65.
- Outros entendem que Paulo não teve tempo de ir a Espanha, que não houve segundo processo, mas que Paulo, enviado a Roma, foi julgado e condenado à morte, sendo este o processo a que alude o apóstolo na sua última carta.
- De qualquer maneira, as Escrituras revelam que, enquanto esteve preso, Paulo escreveu as chamadas “cartas da prisão” (Filipenses, Filemon, Colossenses, Efésios e Segunda a Timóteo), numa clara demonstração de que a prisão não permitiu que o apóstolo desempenhasse o seu ministério. Aliás, há registro na Bíblia de que não só Paulo continuou a orientar as igrejas locais da prisão, como também que evangelizava e ganhava almas para Jesus mesmo no cárcere, como é exemplo Onésimo (Fm.10) e convertidos da guarda pretoriana, a guarda romana (Fp.1:12-14).
- Paulo, condenado à morte durante a primeira grande perseguição romana contra a Igreja, morreu em Roma, decapitado (pois assim se procedia à execução dos cidadãos romanos), por volta do ano 65, época desta perseguição dirigida por Nero, com o sentimento do dever cumprido, pois, como revelou a Timóteo em sua última carta: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé. Já agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, reto juiz, me dará naquele dia e não somente a mim, mas também a todos quantos amam a Sua vinda” (II Tm.4:7,8). Podemos ter esta convicção no instante de nossa morte, que pode ocorrer a qualquer momento? Paulo a tinha e nos deixa este exemplo a ser seguido.
IV – O QUE APRENDEMOS A FAZER COM PAULO
- O ilustre comentarista procurou realçar na vida do apóstolo Paulo dois elementos que devem estar sempre presentes no caráter do cristão, a saber, a autenticidade e o zelo. Sem dúvida alguma, são duas importantes características que aprendemos com o apóstolo, mas tomaremos aqui, a exemplo do que temos feito neste trimestre letivo, uma abordagem mais ampla.

Colaboração/gráfico: Jair César
- A primeira lição que temos com Paulo é o da dedicação. Paulo era uma pessoa privilegiada, pois era judeu, nascido em Tarso, cidade que, a um só tempo lhe conferia cidadania romana e um centro de estudos filosóficos. Entretanto, isto não era suficiente para que Paulo tivesse o progresso que teve. Ele se dedicou ao estudo da filosofia e ao estudo do direito romano com afinco, tendo um tal desempenho que acabou por ser mandado por seus pais para Jerusalém, onde foi estudar com Gamaliel, um dos mais renomados mestres daquele tempo e membro do Sinédrio (At.5:34).
- Paulo é mais uma personagem que nos ensina que devemos nos dedicar a todas as tarefas que nos sejam cometidas. “Dedicação” significa “qualidade ou condição de quem se dedica a alguém ou algo; devotamento, entrega, sacrifício”; “manifestação de amor, apreço, consideração”. Vem da palavra latina “dedicatio”, que era o ato de consagrar aos deuses alguma coisa ou alguém.
- Paulo tinha dedicação, porque amava o que fazia e o que aprendia a fazer, entregando-se totalmente à realização daquilo que precisava ser feito. Assim, estudou tanto a filosofia, quanto o direito como a lei judaica, destacando-se nestes estudos. Tanto é verdade que afirmou que estudara “aos pés de Gamaliel” (At.22:3), expressão que nos mostra que Paulo era dos principais e mais brilhantes alunos do grande mestre judeu, pois só os melhores alunos podiam ficar aos pés do mestre, que costumava ensinar sentado, enquanto os alunos ficavam em pé, com exceção dos mais adiantados a quem, por seu conhecimento, era permitido que se sentassem aos pés do professor, que ficava sempre sentado numa posição mais elevada que onde estavam os alunos (Mt.5:1).
- Esta dedicação vemos, também, no seu empenho na perseguição contra a Igreja. Não media esforços para perseguir os crentes, indo de casa em casa à sua busca (At.8:3), sempre montando estratégias para retirar o que entendia ser um mal para a sua nação, tanto que foi o único a se dispor a ir a Damasco para ali iniciar a perseguição contra os cristãos. O próprio Paulo testifica esta sua dedicação extrema ao judaísmo, ao dizer que, na sua nação, excedia a muitos da sua idade em judaísmo (Gl.1:14).
- Após ter se convertido ao Evangelho, Paulo manteve esta sua dedicação. Vemo-lo incansavelmente pregando o Evangelho, noite e dia, dia e noite, a despeito de todas as circunstâncias adversas. Tinha noção do seu dever e exclamava: “Porque, se anuncio o evangelho, não tenho de que me gloriar, pois me é imposta essa obrigação; e ai de mim se não anunciar o evangelho!”(I Co.9:16). A dedicação do apóstolo era tanta que confessou estar se gastando por causa da obra do Senhor (II Co.12:15).
- Paulo sempre se entregou, se sacrificou pelas causas em que acreditou. Levou sua mão ao arado e jamais recuou desde então. Isto é dedicação, é entrega a Deus e à Sua obra, é ausência de resistência ao chamado do Senhor. Jesus requer isto não apenas de Paulo, mas de todos quantos atendem ao Seu chamado, pois quem leva sua mão ao arado não pode recuar, visto que o Senhor Jesus não tem prazer naquele que recua (Lc.9:62; Hb.10:38).
- Nos dias em que vivemos, poucos têm sido os dedicados, aqueles que realmente têm se entregado para fazer a vontade do Senhor. Muitos chegam até a iniciar a jornada, mas a interrompem, recuam, trocam a dedicação pelas vantagens passageiras, pelas concupiscências, pelas mordomias. Que sejamos dedicados como Paulo, pois só assim poderemos combater o bom combate, acabar a carreira e guardar a fé.
- A dedicação de Paulo era tanta que ele se encontrava totalmente desprendido das coisas desta vida. Paulo não se preocupava com sua posição social, nem tampouco com a sua vida. Para ele, o viver passou a ser Cristo (Fp.1:21). Sua única preocupação era pregar a Cristo crucificado (I Co.1:23; 2:2) e, para tanto, quando foi preciso, Paulo não titubeou em trabalhar como fazedor de tendas (At.18:3; I Ts.2:9).
- Isto nos mostra, em primeiro lugar, que Paulo não era apenas dedicado nos assuntos intelectuais, mas também, como bom jovem judeu, aprendeu um ofício, que não se furtava a exercer quando fosse necessário. Em segundo lugar, Paulo ensina-nos que a dedicação à obra do Senhor não se confunde com assalariamento por parte dos irmãos em Cristo. Dedicação não é profissão, não é justificativa para ser sustentado pela igreja local. Não estamos a dizer que o obreiro não seja digno de um salário, pois este é um ensino do próprio apóstolo Paulo (I Tm.5:18), mas acima da própria sobrevivência está a dedicação. Paulo, quando notou que seu assalariamento poderia significar um prejuízo ou um obstáculo à obra do Senhor, por ser dedicado a esta mesma obra, tratou de fazer tendas, para não ser instrumento de escândalo. Hoje em dia, porém, muitos preferem o vil metal…
- A segunda lição que aprendemos com Paulo é a do zelo, que é fruto da dedicação. A dedicação é a entrega, o sacrifício próprio em prol da obra de Deus. O zelo, por sua vez, é o grande cuidado, a preocupação que se dedica a algo ou alguém, é a forte disposição na realização de algo. O zelo é uma afeição intensa, um sentimento penoso provocado em relação a uma pessoa de quem se pretende o amor exclusivo.
- O zelo é, portanto, um sentimento voltado para os outros, o desejo que se mostra em relação a terceiros como resultado da sua dedicação. Na dedicação, amoldamos a nossa própria conduta para atingirmos um determinado objetivo. No zelo, queremos amoldar a conduta dos outros, a fim de que também eles alcancem este objetivo.
- Acima já falamos a respeito do “zelo religioso” de Paulo, antes de sua conversão, que o levou ao fanatismo e à perseguição impiedosa contra a Igreja. Falemos, agora, do zelo posterior à conversão, o “zelo cristão” do apóstolo, que é totalmente diferente.
- Em II. Co.11:2, Paulo confessa ser “zeloso” em relação à igreja em Corinto, zelo que não se limitava àquela igreja local mas que era uma característica do seu ministério, pois todas as suas cartas mostram a preocupação do apóstolo com a Noiva de Cristo. Este zelo é o “zelo de Deus”, o “ciúme” que o apóstolo Tiago identifica no Espírito Santo (Tg.4:5) e que o próprio Deus revela através do profeta Ezequiel (Ez.16:42).
- Este “zelo de Deus” é a preocupação de que a Igreja não se desvie dos caminhos do Senhor, é a forte disposição de fazer com que os salvos perseverem até o fim, não sejam enganados pelo inimigo, é o esforço para que os integrantes da igreja local permaneçam puros até a volta de Cristo, que não abandonem a simplicidade de Cristo, cujos sentimentos espirituais não sejam corrompidos.
- Este zelo traduz-se, portanto, no empenho, no esforço através do ensino da Palavra de Deus, exortação e admoestação para que os irmãos em Cristo Jesus não se desviem espiritualmente, mas permaneçam firmes até a volta do Senhor. Paulo, em seu convívio com Cristo, aprendeu que não é com força ou com violência que se obtém a adesão dos salvos a uma vida de santificação e crescimento espiritual, mas por meio do Espírito Santo, motivo por que jamais cessou de ensinar, admoestar e exortar o povo de Deus, seja pessoalmente, seja através de epístolas.
- A muitos, porém, têm faltado este “zelo de Deus” em os nossos dias. Muitos têm se calado, deixando de ensinar a Palavra de Deus, exortar ou admoestar o povo do Senhor. Calam-se e permitem um sem-número de inovações, modismos e desvios espirituais, porque trocaram o “zelo de Deus” pelo amor do dinheiro, pela posição social, pelas vantagens passageiras desta vida. Paulo, porém, não era assim, mas tinha plena consciência de seu dever para com Deus e para com a Igreja, sabendo que tinha de apresentar a Deus uma virgem pura e imaculada.
- A terceira lição que Paulo nos ensina é a tolerância. O antes fanático religioso intolerante tornou-se um homem que foi capaz de dizer que não deveríamos comer carne se isto viesse a escandalizar o fraco na fé (Rm.14). Paulo aprendeu e ensinou a lição da tolerância com o pecador, do respeito à cultura de cada povo, a ponto de ter sido o instrumento de Deus para fazer com que a Igreja superasse os limites do nacionalismo judaico e se tornasse, efetivamente, universal.
- Entendamos que a tolerância é a tolerância com o pecador, a compreensão de seu universo cultural, de sua história, mas jamais a tolerância com o pecado, como se vê, claramente, de suas epístolas, onde o apóstolo nunca consentiu com atos errados e a permanência destes erros na igreja, como vemos, por exemplo, na igreja em Corinto (I Co.5) ou na igreja na Galácia (Gl.1:6-10).
- Muitos, nos dias hodiernos, em nome de uma “tolerância com o pecador”, têm deixado que o mundo entre dentro das igrejas locais. Estes não são seguidores de Paulo, mas, sim, falsos mestres, verdadeiros agentes de Satanás que, estando perdidos, desviados da fé, querem levar após si tantos quantos puderem (II Tm.4:3,4; I Pe.2:1,2).
- A quarta lição que Paulo nos ensina é a autenticidade, outra característica relevada pelo ilustre comentarista. Paulo, ao afirmar que era zeloso, diz que não se deveria apartar da simplicidade que há em Cristo Jesus. Ele mesmo era um exemplo disto. Em Paulo, não temos subterfúgios. Ele seguiu, em seu ministério, as palavras do Senhor Jesus, eu estão tão esquecidas na atualidade: “Seja, porém, o vosso falar: Sim, sim; não, não, porque o que passa disso é de procedência maligna” (Mt.5:37).
- Paulo sempre foi um homem autêntico, alguém que jamais escondeu as suas convicções e que as defendia em todo lugar, sob quaisquer circunstâncias. Paulo era o grande perseguidor do Evangelho, mas, tendo aceitado a Cristo, não demorou para iniciar suas pregações. Em Damasco, mesmo, pregava para todos que Jesus era o Filho de Deus (At.9:20), tendo sempre ido até as sinagogas para ali demonstrar aos de sua nação quais eram as suas convicções e porque se deveria crer que Jesus era o Messias.
- Fosse diante do Sinédrio, de César ou dos apóstolos, Paulo jamais escondeu as suas convicções e o seu modo de pensar. Falava e escrevia sempre as mesmas coisas, não se cansando de defender a verdade (At.13:42; Fp.3:1). Por isso, podia exortar aos irmãos para que se mantivessem firmes e constantes na obra do Senhor (I Co.15:58).
- Ser “autêntico” é “ter origem comprovada”, “em que não há falsidade, espontâneo, real”, “que tem autoridade, válido”, palavra que vem do grego “authentikós”, cujo significado é “que tem autoridade, válido, aprovado”. Paulo demonstrava sua origem em Cristo Jesus, seu novo nascimento, tanto que podia dizer para ser imitado, pois era ele imitador do Senhor (I Co.11:1) [A propósito, é, também, significado de “autêntico”, “feito da mesma forma que o original”].
- Paulo não só pregava o Evangelho, mas o vivia, tanto que pôde dizer aos tessalonicenses que o Evangelho tinha ido a eles com poder e no Espírito Santo (I Ts.1:5), o que repetiu aos coríntios (I Co.2:4). Paulo demonstrava a sua filiação divina, que tinha o Espírito Santo em sua vida, por meio de seu comportamento exemplar, bem como pelas maravilhas extraordinárias que o Senhor operava através dele (At.19:11).
- O preço da autenticidade é alto e, por vezes, Paulo muito sofreu por causa de seu apego à verdade (II Co.11:23-28). Aliás, ao resumir o ministério, o Senhor disse que Paulo aprenderia quanto se deve padecer pelo nome de Cristo (At.9:16). O preço da autenticidade é o vitupério de Cristo (Hb.11:26), ou seja, o desprezo que sofremos, a desonra que ganhamos por parte do mundo em virtude de nossa submissão ao Senhor, pois, como nos diz Jesus: “Se o mundo vos aborrece, sabei que, primeiro do que a vós, Me aborreceu a Mim” (Jo.15:18).
- Todavia, hoje muitos não querem pagar o preço da autenticidade, preferindo os tesouros do Egito ao vitupério de Cristo. Servir a Jesus é ter aflições neste mundo (Jo.16:33). Paulo sofreu muito, mas jamais desanimou, correu a carreira que lhe estava proposta e pôde, ao seu final, declarar a sua vitória. Temos, assim, em Paulo, não só a lição da autenticidade, mas, também, da perseverança até o fim, do pagamento do preço, do suporte do vitupério de Cristo.
- Paulo, neste preço da autenticidade, não foi sequer poupado dos próprios irmãos. Paulo sofreu grande oposição dos judaizantes e da igreja em Jerusalém em geral. Se, no início de sua fé, tal resistência e desconfiança eram até compreensíveis, não se justificavam mais depois de tanto empenho e dedicação de Paulo na pregação do Evangelho, mas o fato é que, seja no concílio de Jerusalém (At.15), seja, mesmo, quando voltou a Jerusalém quando de sua prisão, Paulo sempre foi tratado com desconfiança e reserva pelos crentes da Judéia, a tal ponto que teve até de repreender a Pedro que, diante de tamanha pressão contra Paulo, não resistiu e acabou até dissimulando seu comportamento junto aos crentes gentios, e até o próprio Barnabé, o que teve de ser lançado em rosto por Paulo (Gl.2).
- A sexta lição (pois a quinta, como vimos, foi o da perseverança e o do suporte do vitupério de Cristo) é a lição da humildade. Apesar de ser um gigante espiritual, de ter sido o apóstolo que mais contribuiu para a evangelização dos tempos apostólicos, Paulo jamais se considerou superior a quem quer que fosse, mas, pelo contrário, considerava-se como o menor dos apóstolos (I Co.15:9), o abortivo (I Co.15:8), nunca se esquecendo que, por ter sido perseguidor da Igreja, não merecia um lugar de destaque entre os apóstolos (I Tm.1:13).
- Paulo é outra personagem bíblica que se sobressai pela sua humildade de espírito, pela sua integral submissão a Deus. Tamanha foi a submissão de Paulo a Jesus que disse não mais viver, mas Cristo viver nele, como já dissemos supra. Não se tratava de exercício de retórica, mas vemos que Paulo, em todo o seu ministério, somente ia para onde lhe era determinado pelo Espírito Santo, não desviando sua rota nem mesmo quando lhe eram proferidas profecias de que haveria de ser preso e sofrer. O antes obstinado Paulo tornou-se alguém que havia renunciado a si mesmo e fazia tão somente aquilo que o Senhor mandava. Até mesmo seus ensinos eram fruto de prévia recepção do Senhor (I Co.11:23).
- A sétima lição que Paulo nos ensina é da consciência do significado de ser cristão. Ser cristão era não mais viver, mas permitir que Cristo vivesse nele, era fazer a vontade do Senhor e esta vontade nada mais era senão pregar o Evangelho, desincumbir-se das tarefas determinadas pelo Senhor e aguardar a Sua vinda. Viver para Paulo era Cristo e, ao término de seu ministério, Paulo tinha como recompensa ter guardado a fé a fim de poder participar da volta do Senhor. Isto é ser crente para Paulo, algo simples, mas tão sublime.
- Será que temos esta mesma consciência do apóstolo? Será que sabemos que estamos neste mundo para fazer a vontade do Senhor Jesus, para não vivermos mas Cristo viver em nós, descincumbir-nos daquilo que o Senhor tem exigido de nós e estarmos prontos para encontrar com Jesus nos ares? É esta a nossa perspectiva de vida? São estes os nossos alvos prioritários nesta vida ou já deixamos de pensar nestas coisas?
- O próprio Paulo adverte-nos: “Portanto, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à destra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima e não nas que são da terra, porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Cl.3:1-3). Tem sido esta uma realidade em nossas vidas? Que sigamos o exemplo de Paulo e tenhamos uma vida voltada para o céu. Afinal de contas, por que aceitamos a Cristo como Senhor e Salvador de nossas vidas?
V – O QUE APRENDEMOS A NÃO FAZER COM PAULO
- Paulo, como ser humano que era, também nos deixou contra-exemplos e não apenas de sua vida anterior à conversão, como muitos podem achar. Se é verdade que, antes de seu encontro com o Senhor no caminho de Damasco, Paulo era praticamente um contra-exemplo para o cristão, o fato é que, mesmo depois de sua conversão, deixou algumas atitudes que devem ser evitadas pelos salvos.
- Na vida anterior à conversão, o principal contra-exemplo de Paulo é, sem dúvida alguma, o fanatismo religioso, o “zelo religioso”, o “excesso de judaísmo”. O “zelo religioso”, como vimos, só gera ameaças e mortes, quase sempre contra os verdadeiros e genuínos discípulos do Senhor.
- O fanatismo religioso, visto que baseado em doutrinas e mandamentos de homens(quando não de demônios) tem sido um dos principais fatores de mortes e tragédias na história da humanidade. A intolerância religiosa é a negação do amor de Deus para com o homem, pois não há ser mais tolerante com o homem do que o próprio Deus, cuja longanimidade é imensa, pois é tardio em irar-Se (Ex.34:6; Ne.9:17; Jl.2:13; Na.1:3). Se Deus, que é ofendido pelo pecado e pela rebeldia humana, é tolerante e longânimo para com o ser humano, por que haveríamos de ser intolerantes? Por que haveríamos de usar a violência e a força para obter a conversão das pessoas ao Evangelho?
- Os dias em que vivemos são dias de fanatismo religioso. O próprio Jesus, como dissemos supra, afirmou que muitos haverão de perseguir os cristãos genuínos achando que com isto agradarão a Deus. Devemos fugir do fanatismo, pois isto nada mais é que falta de conversão, que falta de novo nascimento, como vemos na vida de Paulo. O fanatismo nada mais é que ódio e onde há ódio, não há amor e quem não ama não é nascido de Deus (I Jo.4:7).
- Ao falarmos em fanáticos religiosos, talvez alguém pense apenas em “homens-bomba” ou outros que estão a demonstrar a sua fé tresloucada de modo violento e chocante, mas há muitos fanáticos que se encontram devidamente trajados e sentados ao nosso lado em nossas igrejas locais, falsos irmãos. Pessoas que, tendo aparência de piedade, negam a sua eficácia, vez que são violentos, espiritualmente insensíveis, verdadeiros “homens-bomba” que têm matado a muitos com suas línguas ferinas, com seus fardos difíceis de suportar. Afastemo-nos deles e não permitamos que venham a se imiscuir na nossa liberdade que temos em Cristo Jesus (II Tm.3:5; Gl.2:4).
- O segundo contra-exemplo que Paulo nos deixa é da inversão de valores entre pessoas e coisas, algo que ocorreu após a sua conversão. A Bíblia relata-nos que, antes da segunda viagem missionária, houve uma grande dissensão entre Paulo e Barnabé por causa do sobrinho deste, João Marcos, que os havia abandonado na primeira viagem (At.13:13; 15:37-39). Neste episódio, vemos que Paulo deu mais valor ao erro cometido por Marcos, que os deixara na primeira viagem, do que ao próprio Marcos, que queria fazer companhia à dupla missionária. Paulo deu mais valor ao fato do abandono, ou seja, às coisas, do que à pessoa de Marcos. Tamanha foi a contenda que Paulo se separou de Barnabé.
- Entretanto, não podemos nós, servos de Deus, permitir que coisa alguma, mesmo uma mágoa ou um ato equivocado, ter maior valor do que o ser humano, feito à imagem e semelhança de Deus. O Senhor, por amor ao homem, apesar de sua rebeldia, deixou a Sua glória e morreu em nosso lugar. As Escrituras, mesmo, afirmam que u’a alma vale mais do que o mundo todo (Sl.49:7,8). Marcos tinha muito maior valor do que o erro que cometera e isto o apóstolo iria aprender, pois, já no término de sua vida, reconhece o valor de Marcos (II Tm.4:11). A quem demos dado maior valor: às pessoas ou às coisas?
- O terceiro contra-exemplo de Paulo foi a sua insistência cultural. Por incrível que possa parecer, ainda que tenha sido o instrumento divino para a propagação do Evangelho para os gentios, o que lhe causou a animosidade dos judeus (que perdura até hoje, pois Paulo é tido como verdadeiro traidor pelos judeus), Paulo muito padeceu porque não se conformou em ser o vaso escolhido para os gentios, tendo insistido em pregar o Evangelho aos judeus, apesar de não ter sido chamado para tanto.
- Embora Deus não faça acepção de pessoas, o fato é que o chamado de Paulo era voltado primeiramente para os gentios e, só, em segundo plano, para os filhos de Israel (At.9:15), mas, durante todo o seu ministério, Paulo sempre primeiro pregou o Evangelho aos judeus, nas sinagogas, para depois, então, fazê-lo aos gentios e o fez embora estivesse consciente de que não era ele o apóstolo da circuncisão (Gl.2:8).
- O resultado desta simples inversão foi funesto para Paulo. O apóstolo muito sofreu por causa da animosidade dos judeus, provocada, precisamente, porque era a eles pregado primeiramente o Evangelho e não aos gentios. Muito dos sofrimentos de Paulo devem ser debitados a esta insistência, que não deixa de ser uma lição para nós: se quisermos evitar alguns sofrimentos em nossas vidas, não saiamos um milímetro sequer da rota traçada pelo Senhor.
- É interessante verificar que todas as circunstâncias que envolveram a prisão de Paulo em Jerusalém estiveram relacionadas a sua disposição de agradar os crentes judaizantes de Jerusalém, indo cumprir votos na companhia de outros irmãos, sem qualquer necessidade de fazê-lo, a não ser o de querer se aproximar dos judaizantes (At.21:21-29).
- O quarto contra-exemplo de Paulo está relacionado com o episódio de sua prisão em Jerusalém. Embora sempre fosse autêntico e levasse o vitupério de Cristo, o apóstolo, neste episódio, quis fazer uma contemporização com os judaizantes, o que teve um mau resultado. Quanto mais autênticos formos, mais deveremos ser. Não há lugar para contemporizações no reino de Deus e se quisermos fazer alguma espécie de acordo com costumes, doutrinas de homens, mandamentos ou quaisquer coisas que não sejam a Palavra de Deus, as conseqüências nos serão funestas. Sim, sim; não, não, pois o que vem fora disto é de procedência maligna. Por causa de um simples gesto de contemporização, Paulo amargou alguns anos de prisão e teve de apelar para César para se livrar da mão do Sinédrio.
- Por fim, o último contra-exemplo de Paulo diz respeito a sua tendência à auto-suficiência, à autoglorificação. O apóstolo alcançou um nível de espiritualidade muito alto, a ponto, inclusive, de ter sido arrebatado até o terceiro céu, onde viu coisas que jamais revelou. Diante de tamanha estatura espiritual, era normal, natural até que, mesmo ele, um exemplo de humildade, fosse tentado a se autoglorificar, como, aliás, vemos a fazer inadvertidamente em II Co.11:16-33. Por isso mesmo, como o Senhor conhecia a sua estrutura, deu-lhe um espinho na carne, a fim de que não se gloriasse e soubesse que nos basta a graça de Deus, ou seja, que tudo o que temos não é por nosso merecimento, mas se trata de um favor imerecido do Senhor (II Co.12:7-10). Era preciso que se mantivesse “paulus”, ou seja, “pequeno” na presença de Deus.
- Muito se discute o que seria este espinho na carne e não é nossa intenção aqui discutir o que ele seja, mas tão somente lembrar que ele existiu para que Paulo não se exaltasse, não tivesse confiança em gloriar-se, não se autoglorificasse. Que aprendamos a nos segurar, a nos mantermos humildes, a fim de que “espinhos na carne” não nos sejam mandados para que nos mantenhamos em nosso devido lugar. É bem melhor ter um espinho “na carne” e conseguir viver eternamente com o Senhor do que nada sofrer na carne e padecer no lago de fogo e enxofre para todo o sempre.
- “…Queira Deus, todos possam estar preparados para encontrar este batalhador na glória e poder abraçá-lo dizendo:
Valeu a pena, irmão Paulo! Obrigado por tudo que deixaste escrito nas tuas epístolas, e por teres sido um batalhador em favor dos gentios; a Cristo, gratidão pela salvação; a ti, pelo estímulo transmitido.…” (Osmar José da Silva. Reflexões filosóficas de eternidade a eternidade, v.6, p.99) (destaque original).
Colaboração para o Portal EscolaDominical: Prof. Dr. Caramuru Afonso Francisco.

August 26th, 2007